top of page

Todo Beijo é Histórico

série que retrata troca de carinhos, inaugurando a pesquisa "Posturas de Afetos"

​Em 2024, a obra “Todo beijo é histórico: A soberania dos afetos prevalece, ainda que 5 votos sejam inconstitucionais”, realizada a partir do edital Arte Aqui (CENEX – UFMG), ocupou um outdoor na entrada da Escola de Belas Artes com a imagem de um beijo entre pessoas trans. Inserido no fluxo urbano e visível desde uma das principais avenidas do Campus Pampulha, o gesto íntimo tornou-se público e monumental. Ao parar diante da imagem para registrar seus próprios beijos, casais e amigos ativavam o trabalho, transformando-o em acontecimento. A obra afirma o beijo como ato histórico e político, sustentando a força dos afetos frente às tentativas de regulação das existências.

DESENHO COMO INSTITUIÇÃO POLÍTICA

Ouvi por aí que a maior tragédia humana é não sabermos o quanto somos amades, e desconfio que já saibamos um cadin mais, ou ao menos, que desconfiamos… Porque isso que nos transborda quando nos vemos, quando nos encontramos, nos falamos e nos tocamos, é o suficiente pra tremer o chão: é o suficiente pra abrir caminhos. Me perguntaram se o outdoor era uma propaganda e eu respondi que sim. É uma propaganda para os afetos. É uma propaganda pra gente se beijar em praça pública: pra que nossos corpos e identidades não sejam mais criminalizados. É uma propaganda pra adubar os imaginários, com todas essas memórias e vidas. É, é um slogan. “Todo beijo é histórico”. Mas, potente, porque é uma verdade. É imagem e, por isso, conecta a minha imaginação e a tua.

Esse outdoor é nosso, essa memória, é nossa. Porque como diz minha autora predileta Carmen Marçal “quem disse, amor, que o mundo não é para ti?”.

Todo Beijo é Histórico

A soberania dos afetos prevalece, ainda que 5 votos sejam inconstitucionais

2024

“Todo Beijo é Histórico” (2024) investiga o desenho como instituição política e o afeto como gesto de insurgência. A obra parte da figuração de um beijo entre pessoas trans e a desloca para a escala urbana, instaurando uma operação de visibilidade que tensiona a fronteira entre intimidade e esfera pública.

Instalada como outdoor na entrada da Escola de Belas Artes da UFMG — visível desde uma das principais avenidas de acesso ao Campus Pampulha — a imagem não se apresenta como ilustração de um tema, mas como acontecimento. Ao monumentalizar um gesto historicamente vigiado, moralizado e juridicamente disputado, o trabalho reinscreve o beijo como ato soberano: não mero afeto privado, mas presença política no espaço comum.

A obra se insere em um contexto de ameaça aos direitos civis de pessoas LGBTQIAPN+, no qual decisões institucionais e discursos normativos operam como dispositivos de controle sobre os corpos e suas formas de vínculo. Ao afirmar que “todo beijo é histórico”, o trabalho explicita que nenhum gesto é neutro: cada toque é atravessado por disputas de reconhecimento, memória e legitimidade.

O outdoor não encerra a obra; ele a convoca. Ao longo da exposição, casais heterossexuais, homoafetivos e amizades passaram a parar diante da imagem para registrar seus próprios beijos. Esse gesto reiterado deslocou a obra do campo da representação para o da ativação. O público não apenas observa — participa. O beijo se multiplica, performa-se, propaga-se.

Assim, o desenho deixa de operar apenas como imagem e torna-se dispositivo de encontro. Se, em outros contextos, o afeto é confinado ao privado, aqui ele ocupa a cidade. Se o Estado legisla, o gesto insiste. A soberania dos afetos não é retórica: é prática visual, é ocupação simbólica, é disputa narrativa.

E é nesse deslocamento — da imagem ao acontecimento, do privado ao comum — que o beijo se torna história em curso.

Os "Mal Educados"

Arquivo, memória e insurgência

“Os Mal Educados” (2024–2025) mobiliza imagens de origens distintas — fotografias do arquivo policial da ditadura, reativadas em Memorável e Contra-Golpe, e registros de insurgência pública tensionados em As Más Línguas e Meu sonho é político — para disputar o direito à memória. Realizados com caneta esferográfica sobre a tinta instável do mimeógrafo, os desenhos são fotossensíveis e se transformam ao longo do tempo, instaurando um “desaparecimento contínuo”.

Ao sobrepor essas imagens a textos de educação sexual dos anos 1990, a série cria anacronismos que tensionam repressão e pedagogia, fazendo do arquivo uma prática de insurgência e do próprio suporte um campo sensível de confronto.

Os "Mal Educados"

2024 - 2025

Esta série investiga o desenho como campo de disputa e o arquivo como território instável. A série nasce de uma pergunta que insiste: quem pode ser lembrado — e sob quais condições? A partir dela, imagens de diferentes procedências são convocadas e colocadas em fricção temporal: documentos policiais da ditadura, registros de protesto, vestígios de imprensa alternativa, cenas de insurgência pública.

Em Memorável e Contra-Golpe, emergem fotografias produzidas pelo aparato repressivo do Estado — retratos feitos no momento do controle e do encarceramento. Essas imagens, criadas para vigiar e classificar, retornam como presença. Os rostos não se oferecem como relíquias, mas como olhares que sustentam o confronto.

Já em As Más Línguas e Meu sonho é político, o lastro desloca-se para o espaço público e para a circulação insurgente: manifestações, discursos, impressos dissidentes. Aqui, a memória não é apenas registro; é gesto coletivo, é voz que se projeta.

Todas as obras são realizadas com caneta esferográfica sobre impressão em mimeógrafo, apropriando textos de educação sexual dos anos 1990 encontrados na Faculdade de Educação da UFMG. O suporte carrega uma manchete ruidosa — “OS MAL-EDUCADOS — PESQUISA DIZ QUE O SEXO É MAL ENSINADO NA ESCOLA” — que atravessa o desenho como eco pedagógico e tensão política.

Tensionando memórias, discursos e permanência, através do uso de tinta da Bic e a tinta instável do mimeógrafo, obtém-se o efeito que denomino desenho em desaparecimento contínuo (fotossensível).

Ao sobrepor fotografias de vigilância, imagens de protesto e fragmentos pedagógicos, a série fabrica anacronismos deliberados. Ditadura e presente se contaminam. O arquivo deixa de ser depósito e torna-se prática de insurgência. O papel deixa de ser superfície e torna-se campo ativo de disputa.

A imagem não se fixa: altera-se, desbota, ressurge em espectro. A memória não é guardada — é colocada em risco, em disputa.

A partir dessa série, as Posturas de Afetos se aproximam de outro conteito imortante para a pesquisa: Figuração em Desvio.

Meu sonho é político

2024 - 2025

Em Meu sonho é político, vemos um protesto em andamento, quem fotografou a cena da imagem base estava próximo ao grupo, as registra com dignidade. Esse grupo tem corpos que diferem em cores e tamanhos, de traços a feições, em estilos de roupa: é diverso. E lá está operando como um corpo maior pela reivindicação de direitos civis. Desta forma um sonho deixa de ser privado, individual, para ser reinscrito como projeto coletivo. Transformando o desejo individual em potência comunitária, sugerindo que o sonho só se realiza quando é partilhado e transformado em luta.

.

Elis Rockenbach, Meu sonho é político, série Os Mal Educados, Caneta esferográfica sobre impressão em mimeógrafo. Desenho em desaparecimento contínuo: Fotossensível. 31 x 29 cm. 2024-2025.

As Más Línguas

2024 - 2025

Em As Más Línguas há uma ironia sutil: a obra retrata Rosely Roth, lendo uma edição do Chana com Chana, sua expressão é leve, um ato cotidiano que, no contexto da repressão, torna-se um gesto político. O título evoca a ideia de fofoca ou calúnia — “as más línguas” —, mas subverte seu sentido ao associá-lo a uma cena de resistência cultural, onde a leitura de um material LGBTQIA+ é um ato de sobrevivência e afirmação. Além disso, a ironia também atua ao conter um teor sexual, com referências a alguns elementos sexuais da cultura sapatão: a lín - gua, os dedos e as mãos, outras formas de estar sexualmente em contado. Aqui, as más línguas organizam suas revoltas, criam redes seguras para seus afetos, e em meio a toda a repressão, elas ainda gozam.

Elis Rockenbach, As Más Línguas, série Os Mal Educados, Caneta esferográfica sobre impressão em mimeógrafo. Desenho em desaparecimento contínuo: Fotossensível.

31 x 29 cm. 2024-2025.

Contra Golpe

2024 - 2025

Na obra Contra Golpe, as figuras retratadas, com rímel borrado e perucas nas mãos, encaram o espectador não como vítimas, mas como sujeitos que resistiram ao apagamento identitário imposto pelos militares. Nesta obra busco explorar imagens e suportes que atravessam o tempo. Me valendo da apropriação como continuidade temporal. Mais um palimpsesto é elaborado como dispositivo.

.

Elis Rockenbach, Contra Golpe, série Os Mal Educados, Caneta esferográfica sobre impressão em mimeógrafo. Desenho em desaparecimento contínuo: Fotossensível. 31 x 29 cm. 2024-2025.

Memorável

2024 - 2025

Em Memorável, temos um convite: desesquecer. Somos convidados por uma figura transgressoa, uma pessoa preta, com cílios marcados, sobrancelhas finiíssimas, desenhadas, lábios pintados. Uma performance de feminilidade?

Seu retrato parte de um enquadramento, daqueles que se fazem em delegaciais

De olhos bem abertos, ela nos encara. onde estão nossas memórias?

Elis Rockenbach, Memorável, série Os Mal Educados, Caneta esferográfica sobre impressão em mimeógrafo. Desenho em desaparecimento contínuo: Fotossensível. 31 x 29 cm.

2024-2025.

Para conhecer mais das referências para elaboração dessa obra, conheça a exposição Retratos em Disputa (2021). Disponível em: https://memorialdaresistenciasp. org.br/exposicao/orgulho-e-resistencias/

A série explicita uma tensão fundamental entre registro e representação: enquanto Memorável e Contra-Golpe se apropriam de imagens produzidas pelo Estado — em que a violência institucional tenta enquadrar corpos dissidentes —, As Más Línguas e Meu Sonho é Político partem de registros íntimos ou militantes, onde a câmera é aliada, não instrumento de controle. Assim temos duas ações diferentes: a) a afronta das pessoas retratadas ressignifica o arquivo opressivo: seus olhares e posturas desafiam a narrativa oficial, devolvendo ao Estado sua própria imagem, mas agora carregada de rebeldia e b) a fotografia é testemunho afetivo, capturando momentos nos quais a política se faz no cotidiano — seja na leitura de um jornal, seja no protesto que transforma a rua em espaço de reivindicação. Essa dualidade revela como o gesto de registrar é também um gesto de poder: quem fotografa, como e com qual intenção define quais corpos serão lembrados, quais serão suas expressões gravadas no tempo. Esta série, ao colocar esses registros em diálogo, não apenas denuncia a violência arquivística, mas oferece contra-narrativas, em que a presença dissidente não é reduzida à vítima, mas celebrada como potência em movimento.

bottom of page